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22 de agosto de 2011

Pietro Carnesecchi e o purgatório

A postagem abaixo foi baseada em uma resposta minha à um comentário feito sob o post Purgatório. Achei que seria interessante ampliar o contexto histórico da crença no purgatório no passado.

Retrato de Pietro Carnesecchi.
Pintura realizada por Domenico Puligo.
1527
"Pietro Carnesecchi, nascido em Florença no início do século XVI, progrediu rapidamente na carreira eclesiástica na corte do Papa Clemente VII, que o designou seu secretário particular. Contudo, sua carreira foi interrompida abruptamente quando o papa morreu. Mais tarde, ele conheceu nobres e clérigos que, como ele, aceitavam algumas doutrinas ensinadas pela Reforma Protestante. Em resultado disso, ele foi levado a julgamento três vezes. Condenado à morte, foi decapitado e seu corpo, queimado.
Na prisão, para quebrar sua resistência, ele foi torturado e deixado sem alimento. Em 21 de setembro de 1567, seu auto-da-fé solene foi realizado em Roma, na presença de quase todos os cardeais. A sentença de Carnesecchi foi lida para ele no cadafalso, diante da multidão. Depois que a sentença de Carnesecchi foi lida, fizeram que ele vestisse um sambenito, uma roupa de saco amarela pintada com cruzes vermelhas, no caso dos penitentes, ou preta com chamas e demônios, para os impenitentes. A sentença foi executada dez dias depois.

Por que esse ex-secretário do papa foi acusado de heresia? Os autos do processo do seu julgamento, descobertos no fim do século XIX, revelam que ele foi considerado culpado de 34 acusações, que correspondem às doutrinas que ele contestava. Entre elas estava o ensino do purgatório."

Fonte: Arquivos pessoais.

Diferentes tipos de sambenitos.
O da direita possui a imagem de chamas
e demônios indicando que o réu fora
condenado à morte

De fato o purgatório como um "dogma inquestionável" da igreja, não existe. Portanto amigo leitor, se você estava preocupado com seu futuro no outro mundo... pode ficar tranquilo! pelo menos para o purgatório você não vai.

Brincadeiras a parte lembremos que muitas das atuais crenças religiosas cristãs foram acrescentadas posteriormente aos ritos cristãos. Por exemplo, o natal já foi até mesmo reconhecido pela igreja como tradição "pós cristã", mas da mesma forma como hoje o natal tem um papel muito grande na sociedade - principalmente a sociedade ocidental - também naquela época a crença no purgatório tinha um forte apelo na sociedade e se engana quem pensa que as pessoas viam as execuções por heresia como um crime naquela época. Por este motivo acredito que o conhecimento histórico deste dogma é relevante, independentemente de nossas crenças. Aliás poucas pessoas são realmente capazes de questionar suas próprias crenças, Pietro Carnesecchi foi capaz.


21 de outubro de 2010

Purgatório



No texto abaixo venho trazendo uma definição que encontrei do que significa o purgatório ao vasculhar meus arquivos pessoais. O texto é basicamente uma série de citações à outras obras de referência, onde diversos autores vêm trazendo definições da origem do termo "purgatório" e seu uso atualmente. Portanto vamos à definição.


Purgatório: “Segundo o ensinamento da Igreja [Católica Romana], o estado, o lugar, ou a condição no outro mundo . . . onde as almas dos que morrem na graça, mas que ainda não estão livres de toda a imperfeição, fazem expiação pelos pecados veniais (i.e. pecados suscetíveis ao perdão) não perdoados ou pelo castigo temporal devido a pecados veniais e mortais que já foram perdoados e, por assim fazerem, são purificados antes de entrarem no céu.”


(New Catholic Encyclopedia, 1967, Vol. XI, p. 1034).



Quanto à natureza do purgatório alguns dos porta-vozes católicos dizem o seguinte:
“Muitos pensam que o sofrimento total no purgatório se identifica com a consciência da postergação temporária da visão beatífica, embora o conceito mais comum seja de que, além disso, há positivamente algum castigo . . . Na Igreja Latina, tem-se geralmente mantido que esta dor é imposta pelo fogo real. Isto, porém, não é essencial à crença no purgatório. Nem mesmo é certo. . . . Mesmo que alguém, como no caso dos teólogos do Oriente, decida rejeitar a idéia do sofrimento induzido pelo fogo, deve cuidar para não excluir do purgatório todo o sofrimento positivo. Ainda assim há real aflição, tristeza, angústia, vergonha de consciência e outras tristezas espirituais, capazes de infligir verdadeira dor à alma. . . . A pessoa deve lembrar, de qualquer forma, que, em meio aos sofrimentos dessas almas, elas gozam de grande alegria em razão da certeza da salvação.”

Na imagem perspectiva do purgatório.


(New Catholic Encyclopedia, 1967, Vol. XI, pp. 1036, 1037).

O filósofo grego Tales (do sétimo século a.C.) ensinava que havia uma alma imortal nos metais, nas plantas, nos animais e nos homens. O poder vital, dizia ele, muda de forma, mas nunca morre. No sexto século a.C., o famoso matemático Pitágoras dizia que, após a morte, a alma ia para o Hades, a fim de ser expurgada, e então voltava para entrar num novo corpo, continuando nesta cadeia de transmigração até culminar numa vida totalmente virtuosa. ‘A alma parece claramente ser imortal’, foi como Platão citou as palavras de Sócrates (do quinto século a.C.). Orfeu, base dum culto místico do sétimo século a.C., deu origem a uma teologia órfica, que ensinava que a alma, após a morte, ia ao Hades para enfrentar o julgamento. A narrativa da História da Civilização de Will Durant, na Parte II, página 190, 191 (em inglês), prossegue:


“Se o veredicto era de culpada, havia severa punição. Uma forma da doutrina
concebia esta punição como eterna e transmitiu à teologia posterior a idéia dum
inferno. Outra forma adotava a idéia da transmigração: a alma renascia vez após
vez, para vidas mais felizes ou mais amargas do que antes, dependendo da pureza
ou da impureza de sua existência anterior e esta roda de renascimentos giraria
até se alcançar a completa pureza e a alma ser admitida nas Ilhas dos Benditos.
Outra variedade oferecia a esperança de que a punição no Hades podia terminar
por meio das penitências realizadas com antecedência pela pessoa, ou após a sua
morte, pelos seus amigos. Assim surgiu a doutrina do purgatório e das
indulgências.”


Crédito da imagem "Perspectiva do Purgatório" Helder da Rocha
Fonte do texto: arquivos pessoais do autor.

20 de outubro de 2010

Dante Alighieri - Do Inferno ao Paraíso.

Pouco se sabe sobre a vida de Dante Alighieri. Levantam-se muitas hipóteses e seus primeiros biógrafos complicaram o contexto ao criar várias histórias em torno de sua existência. Não há documentos oficiais que comprovem seu nascimento. Como ele afirmava ter vindo à luz com o signo de Gêmeos, supõe-se que ele tenha nascido entre o final do mês de Maio e meio de Junho. Assim, os pesquisadores chegaram a uma data mais provável, a de 29 de maio de 1265.
Há vários dados sobre sua trajetória inscritos na própria obra do escritor. No Inferno (XV, 76) ele tenta convencer a todos de sua origem ancestral na Roma Antiga, mas o parente mais remoto que se conhece de Dante, através de uma citação contida no Paraíso, (XV, 135), Cacciaguida do Eliseu, não viveu muito tempo antes de Alighieri. Fruto de uma família florentina ilustre, Dante, que na verdade se chamava Durante e era apelidado de Alaghieri, era filho de Alighiero di Bellincione e de Dona Bella degli Abati, forma abreviada de Gabriella.
Dante fica órfão de mãe aos cinco anos, e pouco tempo depois seu pai se une a outra viúva, Lapa di Chiarissimo Cialuffi, com quem tem mais dois filhos, Francesco e Tana ou Gaetana. O escritor, poeta e político italiano tornou-se o mais consagrado autor de língua italiana, consolidando o idioma moderno em uma época que só valorizava o que era escrito em latim. Nascido em Florença, aí viveu até ser exilado por causas injustas. Ele perdeu também o pai prematuramente, ao completar 18 anos.


Tornou-se célebre o amor de Dante por Beatriz, sua musa inspiradora tanto na obra Vida Nova, quanto na Divina Comédia. Nesta época, era comum o casamento ser negociado entre as famílias. Aos 12 anos o poeta já estava prometido para Gemma Donati, com quem teve vários filhos. Também Beatriz, possivelmente Beatrice Portinari, a quem conheceu quando os dois tinham nove anos, e a quem só reencontraria em 1283, casara-se com o banqueiro Simone dei Bardi, pelos mesmos motivos, normalmente alianças políticas. Uma filha de Dante, Antonia, futuramente se tornaria freira, assumindo o nome da amada de seu pai, Beatrice.
Dante logo perde sua musa, que morre subitamente em 1290, aproximadamente aos 25 anos. O poeta não encontra consolo nesta morte e modifica radicalmente seu comportamento, buscando respostas nas obras de Aristóteles e na poesia. Neste período ele sofre fortes influências de dois poetas da sua Itália – Brunetto Latini, que já pioneiramente escrevia no idioma italiano, e Guido Cavalcanti. Ao lado deste ele institui o Dolce Stil Nuovo. De sua formação acadêmica se sabe também pouca coisa, alguns crêem que ele freqüentou a Universidade de Bologna, outros que ele foi um autodidata.
Na época de Dante, grupos políticos se digladiavam nas cidades, representando interesses familiares. Florença era um dos centros urbanos mais importantes neste período. Embora o poeta tenha nascido sob a égide dos gibelinos, em 1289 ele lutou ao lado do exército dos guelfos, os quais recuperaram o poder florentino. Dante estava intimamente ligado à política, elegendo-se como um dos seis presidentes do Conselho da Cidade, através da guilda dos médicos e farmacêuticos. Logo os guelfos se dividiram entre brancos e negros, por conta de uma disputa de famílias. As posições políticas de ambos se radicalizaram a ponto de Dante ter que providenciar o exílio dos chefes de ambas as facções, em nome da concórdia na cidade. Ele foi obrigado a incluir nesta lista de exilados seu grande amigo Guido Cavalcanti e um familiar de sua própria esposa.
Nesta ocasião o Papa, muito contestado pelos adeptos de Dante, aproveitou o ensejo para, sob a aparente disposição de pacificar a cidade, arrebatar o poder, condenando diversos Guelfos Brancos ao exílio e à morte, entre eles Dante, expulso da cidade durante dois anos e obrigado a pagar uma dispendiosa multa, a qual se não fosse paga acarretaria sua morte no retorno à Florença. Como não paga o montante devido Dante permanece eternamente exilado. Este momento foi muito difícil para o poeta, pois ele foi desamparado pela própria família.
Além da literatura, Dante também se interessava pela pintura e pela música. Na poesia, ele é constantemente inspirado pelo amor que nutre por Beatriz, só comparável a sua paixão pela política. Estes dois sentimentos sustentam a vida e a obra deste poeta maior, imortalizado por sua obra, principalmente pela criação magistral e visionária da Divina Comédia, a qual nasceu justamente no auge de sua amargura, em pleno exílio. Este poema é composto por 100 cantos, organizados em três livros – Inferno, Purgatório e Paraíso -, cada um contendo 33 cantos, com exceção do primeiro, integrado por 34 cantos e conhecido como ‘Canto Introdutório’.
Em 1318, Dante é convidado pelo príncipe de Ravena, Guido Novello da Polenta, a morar em seu reino. Aí o poeta conclui o Paraíso. Pouco tempo depois ele morre, provavalmente vítima de malária, no ano de 1321, aos 56 anos. Seu corpo é enterrado na Igreja de San Pier Maggiore, hoje conhecida como Igreja de San Francisco. Nem mesmo seus restos mortais retornariam a Florença.

Texto acima reproduzido de Ana Lúcia Santana



Apenas para complementar o que disse Ana Lúcia Santana, a respeito da vida de Dante Alighieri, devo acrescentar como forma de fazer um gancho para os dias atuais que, atualmente boa parte de nossa visão do que são o inferno, ou o purgatório e o paraíso está vinculada àquela visão medieval que visualizamos na obra de Dante. Com que freqüência não nos pegamos assistindo um filme onde há uma interpretação do inferno, do purgatório ou paraíso? E se tivermos um pouco mais de atenção não poderemos ver ali uma herança de Dante?



Ao postar esta biografia tive em mente trazer um pouco da história de vida de um homem que ao viver sua época pode nos deixar como legado sua visão de mundo obscuro, mesmo que esta não tenha sido sua intenção durante a vida. Com certeza hoje, no entanto, Dante e todos seus círculos obscuros do inferno, do purgatório e do paraíso são também para nós nossos círculos inspiradores.



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A divina comédia - PDF (PORTUGUÊS)

Convivio - PDF (ITALIANO)

Egloghe - PDF (ITALIANO)

La Vida Nueva - PDF (ESPANHOL)

The Banquet (Il Convito) - PDF (INGLÊS)

Quaestio de Aqua et de Terra - PDF (ATENÇÃO! DOWNLOAD EM LATIM)