27 de outubro de 2010

Salvator Rosa

Outro dia lendo um dos contos de Howard Phillips Lovecraft me deparei com a seguinte frase:
"Por cima de tudo, pairava uma névoa de intranqüilidade e opressão; um toque irreal e grotesco, como se um elemento vital da perspectiva ou do claro-escuro estivesse fora do lugar. Não me surpreendi de que os forasteiros não quisessem ficar; não era uma região para dormir. Parecia demasiadamente com uma paisagem de Salvator Rosa, ou com uma xilogravura proibida de um conto de terror."
Do trecho acima há um nome que me levou a fazer uma pequena pesquisa. O nome em questão é o de Salvator Rosa. Salvator Rosa foi um Pintor barroco italiano da escola napolitana e gravador a água forte (uma técnica de pintura) lembrado por suas selvagemente românticas e sublimes paisagens, pinturas marinhas, e imagens de batalha. Ele também era poeta, humorista, ator e músico.

Rosa estudou pintura em Nápoles, provavelmente sob a influência do pintor e gravador espanhol José de Ribera. Rosa foi a Roma em 1635 para estudar, mas logo ele contrairia malária. Ele voltou a Nápoles, onde pintou numerosas batalhas e fotos marinhas e desenvolveu o seu estilo peculiar de paisagem - pitorescamente cenas selvagens da natureza com os pastores, marinheiros, soldados ou bandidos - tudo impregnado de uma qualidade poética romântica.

Sua reputação como pintor precederia seu retorno a Roma em 1639. Já famoso como artista, ele também se tornou um popular ator cômico. Durante o Carnaval de 1639 ele precipitadamente satirizou o famoso arquiteto e escultor Gian Lorenzo Bernini, deste modo ele obteve um poderoso inimigo. Durante alguns anos depois do ocorrido o ambiente de Florença era mais confortável para ele do que a de Roma. Em Florença, ele gozava do patrocínio do cardeal Carlo Giovanni de Medici. A própria casa de Rosa se tornou o centro de um círculo literário, musical e artístico; chamou-a Accademia dei Percossi. Em 1649 ele voltou e se instalou definitivamente em Roma. Rosa, que havia considerado suas paisagens mais como lazer do que como arte séria, agora voltado amplamente à pintura religiosa e histórica. Em 1660, ele começou a gravar e completou uma série de impressões bem sucedidas. Suas sátiras foram publicadas postumamente em 1710.






24 de outubro de 2010

Howard Phillips Lovecraft

Howard Phillips Lovecraft nasceu às 9 da manhã do dia 20 de agosto de 1890, na casa de sua família, no número 454 (na época, 194) da Angell Street, em Providence, Rhode Island. Sua mãe era Sarah Susan Phillips Lovecraft, cuja ancestralidade ascendia à chegada de George Phillips a Massachusetts, em 1630. Seu pai era Winfield Scott Lovecraft, vendedor ambulante da Gorham & Co., Silversmiths, de Providence. Quando Lovecraft tinha três anos, seu pai sofreu um colapso nervoso num quarto de hotel em Chicago e foi trazido de volta para o Butler Hospital, onde permaneceu por cinco anos até morrer em 19 de julho de 1898. Aparentemente, Lovecraft aprendeu que seu pai esteve paralisado e em coma durante esse período, mas as evidências sugerem que não foi isso que aconteceu. É quase certo que o pai de Lovecraft morreu de paresia, causada pela sífilis.


Com a morte do pai, a responsabilidade de criar o filho recaiu sobre a mãe, duas tias e, em especial, sobre seu avô, o proeminente industrial Whipple Van Buren Phillips. Lovecraft foi uma criança precoce: aos dois anos já recitava poesia e aos três já lia. Foi nessa época que adaptou o pseudônimo de Abdul Alhazred, que mais tarde se tornaria o autor do mítico Necronômicon.

No ano seguinte, porém, seu interesse por assuntos árabes foi eclipsado pela descoberta da mitologia grega, colhida na Age of Fable de Thomas Bulfinch e em versões para crianças da Ilíada e da Odisséia. Com efeito, o mais antigo de seus escritos que se conhece, “O poema de Ulisses” (1897), é uma paráfrase da Odisséia em 88 versos com rimas internas. Mas Lovecraft, por esse tempo, já havia descoberto a ficção fantástica, e sua primeira história – “The Noble Eavesdropper” (O nobre mexeriqueiro) –, que não chegou até nós, parece remontar a 1896. Seu interesse pelo fantástico proveio de seu avô, que entretinha Lovecraft com histórias improvisadas, à maneira gótica.

Enquanto menino, Lovecraft foi um tanto solitário e sofreu de doenças freqüentes, muitas, aparentemente, de natureza psicológica. Freqüentou de maneira esporádica a Slater Avenue School, mas encharcou-se de informações por meio de leituras independentes. Por volta dos oito anos, descobriu a ciência, primeiro a química, depois a astronomia. Passou a produzir jornais em hectógrafo – The Scientific Gazette (A Gazeta Científica) e The Rhode Island Journal of Astronomy (Folha de Astronomia de Rhode Island) –, para serem distribuídos entre amigos. Quando foi para a Hope Street High School (nível colegial), encontrou afinidade e encorajamento tanto nos professores quanto nos colegas e desenvolveu várias amizades bastante duradouras com rapazes da sua idade. A estréia de Lovecraft em letra impressa ocorreu 1906, quando enviou uma carta tratando de assunto astronômico ao Providence Sunday Journal. Pouco depois, começou a escrever uma coluna mensal de astronomia para o Pawtuxet Valley Gleaner, um jornalzinho rural. Mais tarde escreveu colunas para o Providence Tribune (1906-8) e o Providence Evening News (1914-1918), bem como para o Asheville (N. C.) Gazette-News (1915).


Em 1904, a morte do avô de Lovecraft e a subseqüente dilapidação de seu patrimônio e negócio mergulharam a família em sérias dificuldades. Lovecraft e sua mãe se viram forçados a abandonar a glória de seu lar vitoriano para morar numa residência apertada, no número 598 da Angell Street. Lovecraft ficou arrasado com a perda do lar natal. Aparentemente, ele teria pensado em suicídio, enquanto passeava de bicicleta e contemplava as profundezas escuras do rio Barrington.

Mas o gosto de aprender baniu esses pensamentos. Em 1908, porém, pouco antes de sua formatura no colégio, sofreu um colapso nervoso que o obrigou a deixar a escola sem receber o diploma. Esse fato e o conseqüente fracasso em tentar entrar para a Brown University sempre o envergonharam nos anos posteriores, não obstante ter sido ele um dos autodidatas mais formidáveis de seu tempo. Entre 1908 e 1913, Lovrecraft viveu praticamente como um eremita, dedicando-se quase só aos seus interesses astronômicos e a escrever poesia. Ao longo de todo esse período, Lovecraft se envolveu numa relação fechada e pouco saudável com a mãe, que ainda sofria com o trauma da doença e morte do marido e que desenvolveu uma relação patológica de amor-ódio com o filho.

Lovecraft emergiu de seu eremitério de maneira bastante peculiar. Tendo começado a ler os primeiros magazines pulp de sua época, ficou tão irritado com as insípidas histórias de amor de um certo Fred Jackson, no Argosy, que escreveu uma carta em versos, atacando Jackson. A carta foi publicada em 1913, suscitando uma tempestade de protestos por parte dos defensores de Jackson. Lovecraft se meteu num debate acalorado na coluna de cartas do Argosy e dos magazines congêneres, aparecendo as suas respostas quase sempre em dísticos heróicos e humorísticos, descendentes de Dryden e Pope. A controvérsia foi notada por Edward F. Daas, presidente da United Amateur Press Association (Associação Unida de Imprensa Amadora, UAPA), um grupo de escritores amadores de todo o país que escreviam e publicavam os seus próprios magazines. Daas convidou Lovecraft a se juntar à UAPA, e Lovecraft fez isso nos começos de 1914. Lovecraft publicou treze edições de seu próprio periódico, The Conservative (O conservador, 1915-23), e também enviou volumosas contribuições de poesia e ensaios para outros jornais. Mais tarde, tornou-se presidente e editor oficial da UAPA, atuando ainda, por breve período, como presidente da rival National Amateur Press Association (Associação Nacional de Imprensa Amadora, NAPA). Essas experiências podem ter salvado Lovecraft de uma vida de reclusão improdutiva; como ele mesmo disse certa vez: “Em 1914, quando a mão amigável do amadorismo se estendeu para mim, eu estava tão próximo do estado de vegetação quanto qualquer animal... Com o advento da [Associação] Unida, ganhei uma renovação de vida, um senso renovado da existência como sendo algo mais que um peso supérfluo, e encontrei uma esfera na qual podia sentir que meus esforços não eram totalmente fúteis. Pela primeira vez, pude imaginar que minhas investidas desajeitadas no campo da arte eram um pouco mais do que gritos débeis perdidos no mundo indiferente.”

Foi no universo amador que Lovecraft recomeçou a escrever sua ficção, abandonada em 1908. W. Paul Cook e outros, percebendo as promessas dessas primeiras histórias, tais como The beast in the cave (A besta na caverna, 1905) ou The alchemist (O alquimista, 1908), instaram Lovecraft a retomar a pena. E foi o que Lovecraft fez, escrevendo, num jorro, The tomb (A tumba) e Dagon no verão de 1917. Depois, Lovecraft manteve um constante, porém esparso, fluxo de ficção, embora até pelo menos 1922 a poesia e os ensaios ainda fossem os seus modos predominantes de expressão. Lovecraft também se envolveu numa rede sempre crescente de correspondência com amigos e associados, o que o tornou um dos maiores e mais prolíficos missivistas do século.

A mãe de Lovecraft, com sua condição mental e física deteriorada, sofreu um colapso nervoso em 1919, dando entrada no Butler Hospital, de onde, tal como seu marido, jamais sairia. Sua morte, porém, ocorrida em 24 de maio de 1921, deveu-se a uma cirurgia mal conduzida de vesícula. Lovecraft sofreu profundamente com a perda da mãe, mas em poucas semanas se recuperou o suficiente para comparecer a uma convenção de jornalismo amador em Boston, a 4 de julho de 1921.

Foi nessa ocasião que viu pela primeira vez a mulher que se tornaria sua esposa. Sonia Haft Green era judia-russa, com sete anos a mais que Lovecraft, mas ambos parecem ter encontrado, pelo menos no início, bastante afinidade um no outro. Lovecraft visitou Sonia em seu apartamento no Brooklyn em 1922, e a notícia de seu casamento – em 3 de março de 1924 – não foi surpresa para seus amigos, mas pode ter sido para as duas tias de Lovecraft, Lillian D. Clark e Annie E. Phillips Gramwell, que foram notificadas por carta só depois que a cerimônia ocorreu. Lovecraft se mudou para o apartamento de Sonia no Brooklyn, e as perspectivas iniciais do casal pareciam boas: Lovecraft angariara posição como escritor profissional, por meio da aceitação de várias de suas primeiras histórias na Weird Tales, o célebre magazine fundado em 1923, e Sonia tinha uma loja de chapéus bem-sucedida na Quinta Avenida, em Nova York.

Mas os problemas chegaram para o casal quase imediatamente: a loja de chapéus faliu, Lovecraft perdeu a chance de editar um magazine associado à Weird Tales (para o que seria necessário que se mudasse para Chicago), e a saúde de Sonia se esvaiu, obrigando-a a passar uma temporada no sanatório de Nova Jersey. Lovecraft tentou garantir trabalho, mas poucos estavam dispostos a empregar um “velho” de trinta e quatro anos que não tinha experiência. Em primeiro de janeiro de 1925, Sonia foi trabalhar em Cleveland, e Lovecraft se mudou para um apartamento de solteiro, junto a um setor decadente do Brooklyn, denominado Red Hook.

Embora tivesse muitos amigos em Nova York – Frank Belknap Long, Rheinhart Kleiner, Samuel Loveman –, Lovecraft tornou-se cada vez mais depressivo, devido ao isolamento em que vivia e às massas de “forasteiros” na cidade. Sua ficção passou do nostálgico (“The shunned house” – 1924 – se passa em Providence) para o frio e misantrópico (“The horror in Red Hook” e “He” – ambas de 1924 – expõem claramente seu sentimento por Nova York). Finalmente, no início de 1926, fizeram-se planos para a volta de Lovecraft a Providence, da qual sentia tanta falta. Mas onde se encaixava Sonia nesses planos? Ninguém parecia saber, muito menos Lovecraft. Embora continuasse a professar sua afeição por ela, acabou concordando quando suas tias se opuseram à vinda dela a Providence, para iniciar um negócio: seu sobrinho não podia manchar-se com o estigma de uma esposa que era negociante. O casamento praticamente acabou, e o divórcio – ocorrido em 1929 – foi inevitável.

Quando Lovecraft retornou a Providence, em 17 de abril de 1926, para morar na Barnes Street, ao norte da Brown University, não foi para se sepultar, conforme fizera no período de 1908-1913. De fato, os últimos dez anos de sua vida foram o tempo de seu maior florescimento, tanto como escritor quanto como ser humano. Sua vida era relativamente pobre de ocorrências – viajou largamente por vários lugares antigos ao longo da costa leste (Quebec, Nova Inglaterra, Filadélfia, Charleston, Santo Agostinho); escreveu sua melhor ficção, isto é, desde “The call of Cthulhu” (O chamado de Cthulhu, 1926) até “At the mountains of madness” (Nas montanhas da loucura, 1931) e “The shadow out of Time” (A sombra dos tempos, 1934-1935); e continuou sua correspondência vasta e prodigiosa –, mas tinha encontrado seu nicho como escritor de ficção fantástica da Nova Inglaterra e também como homem de letras. Estimulou a carreira de muitos autores jovens (August Derleth, Donald Wandrei, Robert Bloch, Fritz Leiber); voltou-se para as questões políticas e econômicas, quando a Grande Depressão o levou a apoiar Roosevelt e a se tornar um socialista moderado; e continuou absorvendo conhecimento num largo espectro de temas, de filosofia até literatura, história e arquitetura.


Nos últimos dois ou três anos de sua vida, no entanto, Lovecraft passou por alguns apertos. Em 1932, morreu a sua amada tia Mrs. Clark, e ele se mudou para o número 66 da College Street, atrás da John Hay Library, levando consigo sua outra tia, Mrs. Gamwell, em 1933. (Esta casa é agora o número 65 da Prospect Street.) Suas últimas histórias, cada vez mais longas e complexas, eram difíceis de vender, e ele foi forçado a ganhar seu sustento às custas de muita “revisão” ou trabalho como ghost-writer de histórias, poesia e obras não-ficcionais. Em 1936, o suicídio de Robert E. Howard, um de seus correspondentes mais chegados, deixou-o desorientado e triste. Por essa época, a doença que o levaria à morte – um câncer no intestino – havia progredido tanto que pouco se podia fazer para tratá-la. Lovecraft tentou resistir, em meio às dores crescentes, através do inverno de 1936-1937, mas finalmente teve de dar entrada no Jane Brown Memorial Hospital, em 10 de março de 1937, onde morreu cinco dias depois. Foi sepultado em 18 de março, no jazigo da família Phillips, no Swan Point Cemetery.

É provável que, percebendo a aproximação da morte, Lovecraft tenha entrevisto o esquecimento final de sua obra: nunca teve um único livro publicado em toda a vida (a não ser, talvez, a péssima edição de The shadow over Innsmouth – A sombra sobre Innsmouth –, de 1936), e suas histórias, ensaios e poemas jaziam espalhados por uma porção desconcertante de pulp magazines amadores. Mas as amizades que ele tinha forjado só por correspondência lhe valeram aqui: August Derleth e Donald Wandrei estavam determinados a preservar dignamente as histórias de Lovecraft num um livro de capa dura e criaram ao selo editorial Arkham House, destinado inicialmente à publicação de Lovecraft. Editaram The outsider and the others (O forasteiro e outras histórias), em 1939. Diversos outros volumes se seguiram pela Arkham House, até que a obra de Lovecraft passou ao papel e foi traduzida em uma dúzia de línguas. Hoje, no centenário de seu nascimento, suas histórias estão disponíveis em edições com texto corrigido, seus ensaios, poemas e cartas circulam amplamente, e muitos estudiosos têm comprovado as profundidades e complexidades de sua obra e de seu pensamento. Falta muito a ser feito no estudo de Lovecraft, mas é correto dizer que, graças ao mérito intrínseco de seu trabalho e à diligência de seus associados e apoiadores, Lovecraft conquistou um pequeno, mas inexpugnável, nicho no cânone das literaturas americana e mundial.


Fonte: Sitelovecraft.com

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A Árvore

A Casa Abandonada

A Coisa no Luar

A Cor que Veio do Espaço

Azathot

Celephais

Dagon

Fechado na Catacumba

O Caso de Charles Dexter Ward

O Depoimento de Randolph Carter

O Inominável

O Terrível Ancião

23 de outubro de 2010

Alexandre Herculano

Escritor do Romantismo português, nasceu em Lisboa, no ano de 1810. Não ingressou em nenhuma faculdade, viveu num exílio na Inglaterra e na França.
Atuou nas reformas do cotidiano português, travou polêmica com o clero em busca de liberalidades para a sociedade portuguesa da época. Os temas predominantes em suas obras eram as origens da nação portuguesa, tanto em seu trabalho ficcional ou não-ficcional o caráter histórico é abordado como fonte de explicação dos fatos e da sociedade é sempre presente.
O autor, considerado um grande intelectual em sua época, escreveu poesias, romances, contos e obras historiográficas. “Eurico, o presbítero”, romance lançado em 1844, é considerado a sua melhor obra.
Na obra o autor questiona o celibato e ambientaliza a história no século VIII, tratandi sobre as reconquistas do território português. Na época de Herculano, século 19, o povo português tinha a preocupação de conhecer a origem de seu país e a formação de seu povo, fato que explica a aceitação das obras de Alexandre Herculano.
O personagem Eurico transforma-se em padre, depois em cavaleiro Negro, ambos os casos após ser negado em casamentos pelo pai de sua amada, porém é enfatizado no romance os fatos históricos. A obra é considerada como romance histórico.
Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo, era um autor interessado na era medieval e no caráter etimológico de seu país. Faleceu em Val – de – lobos, em 1877.


Estátua de Alexandre Herculano em Lisboa



Texto reproduzido de Fernando Rebouças





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22 de outubro de 2010

Inferno



Inferno é a palavra usada na versão Almeida da Bíblia (bem como na versão católica Matos Soares e na maioria das traduções antigas), para traduzir o termo hebraico she’óhl e o grego haídes. Na versão Almeida, a palavra “inferno(s)” é traduzida 28 vezes de she’óhl e 7 vezes de haídes. Esta versão não é coerente, contudo, uma vez que she’óhl também é traduzido 27 vezes por “sepultura”, 5 vezes “sepulcro”, 1 vez “terra”, 1 vez “enterrados”, 1 vez “mundo invisível”, e 2 vezes é transliterado “Seol”. Na versão Matos Soares, o termo she’óhl é traduzido por “inferno(s)” 34 vezes, “habitação dos mortos” 11 vezes, “sepulcro” 11 vezes, “sepultura” 4 vezes, “abismo” 1 vez, “terra” 1 vez, “[perigos] exiciais” 1 vez, “morte” 1 vez, e é transliterado “cheol” 2 vezes.


Em 1885, com a publicação da completa English Revised Version (Versão Revisada Inglesa), a palavra original she’óhl foi, em muitos lugares, transliterada para o texto inglês das Escrituras Hebraicas, embora, na maioria das suas ocorrências, se usasse “sepultura” e “cova”, e “inferno” ocorre cerca de 14 vezes. Este foi um ponto em que a comissão americana (dos E.U.A.) discordou dos revisores ingleses, e, assim, ao produzirem a American Standard Version (Versão Padrão Americana, 1901), eles transliteraram she’óhl em todas as suas 65 ocorrências. Ambas as versões transliteraram haídes nas Escrituras Gregas Cristãs em todas as suas dez ocorrências, embora a palavra grega Géenna (português: “Geena”) seja traduzida por “inferno” em todas as ocorrências, como acontece em muitas outras traduções modernas.
A respeito do uso de “inferno” para traduzir estas palavras originais do hebraico e do grego, o Dicionário Expositivo de Palavras do Velho e do Novo Testamento, de Vine, (1981, Vol. 2, p. 187) diz: “HADES . . . Corresponde a ‘Seol’ no Antigo Testamento. Na Versão Autorizada do Antigo Testamento e do Novo Testamento, foi vertido de modo infeliz por ‘Inferno’.”
A Enciclopédia da Collier, (1986, Vol. 12, p. 28) diz a respeito de “Inferno”:


“Primeiro representa o hebraico Seol do Antigo Testamento, e o grego Hades, da
Septuaginta e do Novo Testamento. Visto que Seol, nos tempos do Antigo
Testamento, se referia simplesmente à habitação dos mortos e não sugeria
distinções morais, a palavra ‘inferno’, conforme entendida atualmente, não é uma
tradução feliz.”


É, de fato, devido ao modo como a palavra “inferno” é entendida atualmente que ela constitui uma maneira tão ‘infeliz’ de verter estas palavras bíblicas originais. O Terceiro Novo Dicionário Internacional de Webster, exaustivo, diz sob “Inferno”: “de . . . helan, esconder”. A palavra “inferno” não transmitia assim, originalmente, nenhuma idéia de calor ou de tormento, mas simplesmente de um ‘lugar coberto ou oculto’. No antigo dialeto inglês, a expressão “helling potatoes” (“infernizar batatas”) significava, não assá-las no fogo, mas simplesmente colocar as batatas no solo, ou num porão.
O significado atribuído à palavra “inferno” atualmente é o representado na Divina Comédia de Dante, e no Paraíso Perdido de Milton, significado este completamente alheio à definição original da palavra. A idéia dum “inferno” de tormento ardente, porém, remonta a uma época muito anterior a Dante ou a Milton. A Enciclopédia Universal Grolier, (1971, Vol. 9, p. 205), sob “Inferno”, diz: “Os hindus e os budistas consideram o inferno como lugar de purificação espiritual e de restauração final. A tradição islâmica o reputa um lugar de castigo eterno.” O conceito de sofrimento após a morte é encontrado entre os ensinos religiosos pagãos dos povos antigos da Babilônia e do Egito. As crenças dos babilônios e dos assírios retratavam o “mundo inferior . . . como lugar cheio de horrores, . . . presidido por deuses e demônios de grande força e ferocidade”. Embora os antigos textos religiosos egípcios não ensinem que a queima de qualquer vítima individual prosseguiria eternamente, eles deveras retratam o “Outro Mundo” como tendo “covas de fogo” para “os condenados”.


The Religion of Babylonia and Assyria (A Religião de Babilônia e Assíria), de Morris Jastrow Jr., 1898, p. 581; The Book of the Dead (O Livro dos Mortos), com apresentação de E. Wallis Budge, 1960, pp. 135, 144, 149, 151, 153, 161, 200.



Visto que o “inferno de fogo” tem sido um ensino básico da cristandade por muitos séculos, é compreensível por que a Enciclopédia Americana, (1956, Vol. XIV, p. 81) disse: “Muita confusão e muitos mal-entendidos foram causados pelo fato de os primitivos tradutores da Bíblia terem traduzido persistentemente o hebraico Seol e o grego Hades e Geena pela palavra inferno. A simples transliteração destas palavras por parte dos tradutores das edições revistas da Bíblia não bastou para eliminar apreciavelmente esta confusão e equívoco.”



Fontes: arquivos pessoais do autor.

21 de outubro de 2010

Purgatório



No texto abaixo venho trazendo uma definição que encontrei do que significa o purgatório ao vasculhar meus arquivos pessoais. O texto é basicamente uma série de citações à outras obras de referência, onde diversos autores vêm trazendo definições da origem do termo "purgatório" e seu uso atualmente. Portanto vamos à definição.


Purgatório: “Segundo o ensinamento da Igreja [Católica Romana], o estado, o lugar, ou a condição no outro mundo . . . onde as almas dos que morrem na graça, mas que ainda não estão livres de toda a imperfeição, fazem expiação pelos pecados veniais (i.e. pecados suscetíveis ao perdão) não perdoados ou pelo castigo temporal devido a pecados veniais e mortais que já foram perdoados e, por assim fazerem, são purificados antes de entrarem no céu.”


(New Catholic Encyclopedia, 1967, Vol. XI, p. 1034).



Quanto à natureza do purgatório alguns dos porta-vozes católicos dizem o seguinte:
“Muitos pensam que o sofrimento total no purgatório se identifica com a consciência da postergação temporária da visão beatífica, embora o conceito mais comum seja de que, além disso, há positivamente algum castigo . . . Na Igreja Latina, tem-se geralmente mantido que esta dor é imposta pelo fogo real. Isto, porém, não é essencial à crença no purgatório. Nem mesmo é certo. . . . Mesmo que alguém, como no caso dos teólogos do Oriente, decida rejeitar a idéia do sofrimento induzido pelo fogo, deve cuidar para não excluir do purgatório todo o sofrimento positivo. Ainda assim há real aflição, tristeza, angústia, vergonha de consciência e outras tristezas espirituais, capazes de infligir verdadeira dor à alma. . . . A pessoa deve lembrar, de qualquer forma, que, em meio aos sofrimentos dessas almas, elas gozam de grande alegria em razão da certeza da salvação.”

Na imagem perspectiva do purgatório.


(New Catholic Encyclopedia, 1967, Vol. XI, pp. 1036, 1037).

O filósofo grego Tales (do sétimo século a.C.) ensinava que havia uma alma imortal nos metais, nas plantas, nos animais e nos homens. O poder vital, dizia ele, muda de forma, mas nunca morre. No sexto século a.C., o famoso matemático Pitágoras dizia que, após a morte, a alma ia para o Hades, a fim de ser expurgada, e então voltava para entrar num novo corpo, continuando nesta cadeia de transmigração até culminar numa vida totalmente virtuosa. ‘A alma parece claramente ser imortal’, foi como Platão citou as palavras de Sócrates (do quinto século a.C.). Orfeu, base dum culto místico do sétimo século a.C., deu origem a uma teologia órfica, que ensinava que a alma, após a morte, ia ao Hades para enfrentar o julgamento. A narrativa da História da Civilização de Will Durant, na Parte II, página 190, 191 (em inglês), prossegue:


“Se o veredicto era de culpada, havia severa punição. Uma forma da doutrina
concebia esta punição como eterna e transmitiu à teologia posterior a idéia dum
inferno. Outra forma adotava a idéia da transmigração: a alma renascia vez após
vez, para vidas mais felizes ou mais amargas do que antes, dependendo da pureza
ou da impureza de sua existência anterior e esta roda de renascimentos giraria
até se alcançar a completa pureza e a alma ser admitida nas Ilhas dos Benditos.
Outra variedade oferecia a esperança de que a punição no Hades podia terminar
por meio das penitências realizadas com antecedência pela pessoa, ou após a sua
morte, pelos seus amigos. Assim surgiu a doutrina do purgatório e das
indulgências.”


Crédito da imagem "Perspectiva do Purgatório" Helder da Rocha
Fonte do texto: arquivos pessoais do autor.